Equador
Latitude 0º
Voo sobre o meu território
O meu pertencer
Planando tranquila
Na coordenada de te querer.
Decalco geografias
Qua não vêm nos mapas
Vêm da terra, de um ser construindo
De ti e da tua longitude.
E pouso no doce planisfério
De te sentir e olhar e aproximar e cuidar
Porque me és equador.
Prenda de Natal
A ti, que me deste o caderninho
E que sabes como ninguém a maré das palavras
Te agradeço e te adoro
Por me dedicares tão belas páginas e letras
Que já cobri de estima e carinho.
Escrevo sobre o caderno
Pela paixão inspirada que exala de suas folhas
Escrevo para te descrever
Como me és, como me te sinto
Porque escreves páginas em mim.
Balada
Hoje peguei na viola e toquei-te
Numa balada Dó Lám singela e pura
Mas sentida e intensa como tu
Nos acordes canto-te
Solto ao mundo
Canto a sorte
De mesmo longe estar junto
Dedilho nas cordas
Que o teu pensamento percorre e perscruta
A origem essencial das palavras e dos seres
E a essência original de mim ti.
Leva-me a subir a montanha.
A montanha, o monte, o vale, a planície
Mesmo a planície desejo subir contigo.
Lágrimas e serpentinas
Por uma tristeza
Um rol de lágrimas
Duras, súbitas, directas
Até tornar translúcida a direcção.
Por um momento feliz
Sorrisos de serpentinas
Amolecidos, longos, labirintos.
Quando pressinto o quanto és em mim
Serpentinas lacrimejadas
Duras de uma moleza apaixonada
Repentinas e longas na lembrança
Directas, pelos labirintos meus que desvendam.
Chegada para a partida
"E assim chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também despedida"
Maria Rita
...A viagem, ponte suspensa entre o vivido e o sonho do que virá.
A benção de amar existe, sobrepõe-se, e o coração devolve escancarados sorrisos
Mas os olhos logo alcançam o precipitar da distância, o aproximar do cais
E por isso soluçam pequenos choramingos.
A liberdade, o poder do percurso, a força da velocidade, traçados (in)destinados.
A certeza aguçada da chegada.
Para onde segue o comboio?
Chego. Saio. Olho-te longamente na paragem
(parece-me que nos cederam alguns segundos)
Deixo-me adorar-te mais.
Apartam-me os teus olhos quentes
Que têm dentro as cores térreas do caminho
Vejo-te liberto de amarras e nós
Solto no ar fica o pretexto para o reencontro.
E assim, embora comigo estejas,
Segues viagem para a partida, e eu parto para a chegada
Mais certa de que também quero chegar a partir, ainda que caminhando mais devagar.
Prelúdio (para a Mariana...)
O piano dolorido encena o silêncio
Em que se tecem lágrimas e foguetes
Caprichoso e rebelde nos agudos
Nos graves afirmado e senhor
Emudece a voz e consente o ouvido
Numa escala de sons multicolores.
O piano é como o búzio:
Nele ouve-se o mar, a tempestade
Canta a paixão e a dor.
O piano é o princípio, o primeiro
Orgulhoso quem lhe dá voz.
Vida
"Luz do sol
Qua a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha, em graça, em vida, em força, em luz
Céu azul que venha até onde os pés
Tocam na terra e a terra inspira e exala seus azuis
Reza, reza o rio
Córrego pro rio, rio pro mar
Reza correnteza, roça a beira a doura areia
Marcha um homem sobre o chão
Leva no coração uma ferida acesa
Dono do sim e do não
Diante da visão da infinita beleza
Finda por ferir com a mão essa delicadeza coisa mais querida
A glória da vida"
Gal Costa
Peregrino
Admiro a busca do peregrino
No cajado a vontade
Da montanha a força
Quero passos corajosos, imbricados de fé
De um olhar mais puro, mais dentro
Também eu serei peregrina
Do amor e da verdade.
"Agora onde te despes
É verão:
Tudo acolhe
E afaga
O que o teu corpo tem
De concha molhada."
Eugénio de Andrade
União
Feliz por nos termos deixado ser quem nos tornámos.
Bússola
Norte Caminho Cajado Légua
Sul Cor Coral Areia
Norte na quietude ancorada do sul
Sul na busca estelar do norte.
Norte e Sul na mesma direcção da bússola.